quinta-feira, 14 de maio de 2009

maçã na cabeça a 50 passos de distância


Esse é o início da picada, a primeira mancha de calor púrpura que aparece no meu detector ótico na hora duma escolha dita importante. E, note, sem juízo de valores quanto ao certo ou errado. O drama é o alvo ilegível, a tensão nervosa, a dificuldade do tiro, e não necessariamente a salvação buscada, podendo ela ser a fruta, a face, o tronco, o vazio ou até mesmo a unha do dedo mindinho do próprio pé.

Não importa o quão safo és com o arco e quão treinada é tua mira. Macaco velho pode até ter um tiquim de virtuosismo a mais nas sobrancelhas ou talvez uma bamboleadazinha no canto do bigode que pode fazer a diferença na estocada final, mas garantia de gomo partido ao meio e semente triscada à mostra, aquela garantia com carimbo do cacique-mór e benção de Oxóssi e tudo, isso ele não tem.

E eu, bicho sortudo do meio termo social, com certa oportunidade de vislumbrar o gol, acertar o bandeirinha e não ter perigo de ter mamãe tacada na esquina, é que não tenho mesmo. Nessas horas críticas, ou cínicas, pra falar como o bom e velho mestre da música paulistana João Rubinato, sou duma descoordenação motora e psíquica que benzadeus. Faltou o Tell no meu nome. E sobrou a besta.

A questão é que sempre meço de três jeitos diferentes, intercalo as coincidências teóricas com as reminiscências práticas, tiro prova dos noves fora, passo noites num alerta só, ou porque tenho quentura de provação, ou porque vou pros botecos umedecer os dedos, fazer enquetes e bolar estatísticas qualitativas, levando em conta, obviamente, as condições de temperatura e pressão dos pobres opinantes no momento exato da expressão facial que leva ao voto.

E, ainda assim, no geral, vejo-me escorrendo pro miolo da circunferência do engano. Ora o sono atrasado faz-me insolente e indolente, ora a ressaca eleva minha inefável displicência e multiplica as projeções imaginativas que não levam a lugar algum. E o pior é que a percepção nascente do equívoco abrilhanta-se em pleno ato, nem antes, nem depois, quando a boca catatoniza o cérebro num jogo brancocoloridobrancocoloridobrancocolorido e fudeu. Lá se vai a roda do carro ralando na guia. Na ida e na volta.

E aí, ainda que não seja vergonhoso voltar atrás e/ou por baixo e/ou à margem, decido que o mais propício é mudar de fase, com nova vida e novos pontos, faça chuva ou faça sol. E assim sigo a pular capôs e sarjetas, desafiar a insanidade, a política, o mercado e a crise, e caçar tesouros, como num pitfall urbano. Bifurcação é diabo quem bota, só pode ser. E é por essas e outras que sigo agnóstico, quase sincrético, quase ateu.

Enfim, acabo de escolher que agora terei um blog, mesmo com total consciência da incapacidade de gerir esse lixo pessoal por muito tempo. E o que isso tem a ver com opções, decisões, gatilhos, erros e acertos, cabe à meia volta que dei em plena marcha feliz. De um jeito ou de outro, agora me vejo de novo escrevinhador e, por consequência, já que assim foi estabelecido por autoridade, fingidor. No fundo, estou só tomando distância pra mais uma burrada. E vai curíntia!

4 comentários:

  1. Muito bom texto, tem umas imagens muito interessantes aqui. Voltarei.
    Quando vai ter show do Sombaguá? Avise, por favor.
    Abs!
    Mauricio Guedes

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  2. há os que diriam: MERDA!
    outros: QUEBRE A PERNA!

    e, como nunca compreendi um ou outro, digo apenas e na singelitude:

    vai que vai, nobre barba, caro rapaz!

    e do not furget: por meió que seja o gorgonzola, que nunca esteja na esfiha de carne.

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  3. É muita erudição!

    Até parece que faz a barba.

    Legal, véi.
    Vrax
    Pán

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  4. Algo me é muito familiar...."a roda do carro ralando a guia"...(rs). Belo texto!!
    Valdinei

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mandaí!